Por Greg M. Schurtz
Nota: 08.0/10.0
A ANHAGUAMA mergulha em uma combinação de Death e Black Metal de raízes oitentistas e noventistas em Formula of Zos Vel Thanatos, EP originalmente lançado em 2022 e construído ao longo de um processo iniciado ainda em 2019. Com cinco faixas e cerca de 18 minutos, o registro concentra uma proposta essencialmente underground, marcada pelo ocultismo, pelo Caminho da Mão Esquerda e por referências às obras de Aleister Crowley e Austin Osman Spare. A própria banda reconhece que a fusão entre a brutalidade do Death Metal e a atmosfera do Black Metal está no centro de sua identidade desde a formação, em 2007. Gravado no Monolito Studio, em Mogi das Cruzes (SP), o trabalho teve produção, engenharia e mixagem de André Marques.
O guitarrista e vocalista Eosphorus é peça fundamental para o caráter do EP, especialmente pela maneira como seus riffs transitam entre velocidade, dissonância e momentos de maior definição melódica. Em “Ra-Hoor-Khuit”, faixa de abertura, essa característica aparece de imediato: a composição estabelece um ambiente hostil e ritualístico, alternando ataques velozes com passagens que ampliam a sensação de tensão. “N.O.X.” aprofunda essa abordagem e surge como um dos pontos altos do trabalho, graças à combinação entre agressividade, mudanças de andamento e uma atmosfera particularmente sombria. O resultado é uma guitarra que não depende exclusivamente da velocidade para transmitir peso, embora alguns momentos mais melódicos e determinados solos soem menos convincentes do que os trechos de maior ferocidade.
Na bateria, o saudoso Necromancius Apocalypticus contribui decisivamente para a faceta mais brutal de Formula of Zos Vel Thanatos. Sua interpretação no instrumento demonstra características mais próximas do Black Metal, evitando uma condução excessivamente previsível e reforçando o caráter ameaçador das composições. “Aeon of Horus” merece destaque justamente por explorar esse contraste: a faixa combina a violência rítmica da bateria com linhas de guitarra que introduzem uma dimensão mais atmosférica, criando uma dinâmica interessante entre caos e organização. A crítica internacional também apontou essa capacidade de equilibrar agressividade Death Metal, frieza black metal e elementos mais tradicionais sem transformar a mistura em uma simples colagem de referências.
O baixo de Azatoth completa a estrutura do trio em sua formação posteriormente apresentada pela banda, embora o registro de 2022 conte com André Marques como baixista convidado e responsável também pela produção, gravação, engenharia e mixagem. Musicalmente, a função do instrumento é menos voltada ao protagonismo e mais à sustentação do ambiente pesado criado por guitarras e bateria. Nesse contexto, “Necromancy & Magick of Hecate” funciona como outro destaque do EP: curta, direta e carregada de tensão, a faixa encerra o material sem prolongamentos desnecessários e reforça a vocação da ANHAGUAMA para construir atmosferas densas dentro de estruturas compactas. Já a faixa-título, “Formula of Zos Vel Thanatos”, aposta em uma abordagem ainda mais concentrada, funcionando como uma espécie de núcleo conceitual e sonoro da obra.
Como conjunto, Formula of Zos Vel Thanatos está longe de ser um trabalho preocupado em polir excessivamente suas arestas — e essa característica pode ser entendida tanto como virtude quanto como limitação. A produção mantém clareza suficiente para que os instrumentos sejam percebidos, mas preserva uma aspereza compatível com a proposta da banda. O principal mérito da ANHAGUAMA está justamente na capacidade de fazer o caos conviver com passagens de maior definição, criando uma identidade que não se resume ao Black ou ao Death Metal convencional. Há momentos em que as incursões melódicas e os solos parecem menos desenvolvidos, mas a força dos riffs, a expressividade dos vocais e a atmosfera ocultista sustentam um registro autêntico, visceral e coerente com uma trajetória construída há quase duas décadas no underground.
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